sexta-feira, 1 de abril de 2011

FENOMENOLOGIA HILÉTICA E FENOMENOLOGIA MATERIAL

FENOMENOLOGIA MATERIAL

MICHEL HENRY
 A – No primeiro estudo, "Fenomenologia hilética e fenomenologia material" (pp. 13-59), com alguma inspiração heideggeriana, chama-se à atenção para a novidade que a fenomenologia material confere à fenomenologia clássica. Partindo de uma reflexão sobre o tempo (pois é este o único modo de pesar o como da manifestação da consciência ela mesma), atinge-se a principal questão da afetividade pura, na sua ipseidade de um pathos acósmico. As Idéias Diretoras para uma Fenomenologia, nomeadamente os §§ 851, 862 e 973 , e as Lições para uma Fenomenologia Interna do Tempo", de 1905, são os textos que vamos abordar neste ensaio. Do § 97, retoma Michel Henry a pista que conduz à conceptualização do tipo de fundação existente entre os planos noético e noemático - ponto chave da sua reflexão. 

A ciência noética e uma disciplina científica investiga a natureza e potencialidade da consciência, indicando os múltiplos métodos do conhecimento, incluindo a intuição, o sentimento, a razão e o sentidos.
A ciência noética explora o mundo exterior da mente (da consciência, da alma vivente, do espírito) é como se relaciona com o universo físico.

A palavra “noética” vem do grego “nous”, mas não temos o equivalente em português. Noética se refere ao “conhecimento interno”, uma espécie de consciência intuitiva de acesso imediato ao conhecimento e mais além do que está a disposição de nossos sentidos normais e o poder da razão.

O que é Ciências Noéticas? Ciências Noéticas são as explorações da natureza e o potencial da conciência mediante multiplas formas do conhecimento. Ciências Noéticas explora o “cosmos interno” da mente (conciência, alma vivente,espírito) e como se relaciona com o cosmo se relaciona com o cosmo exterior do “mundo físico”.

O verbo grego νοέω (infinito, νοεῖν) significa, “ver, discernimento” – a diferença do mero, “ver” – e, de tem que, “pensar”. Entre os filósofos gregos foi comum usar para designar um, “ver inteligente”, o “ver pensante”, que é ao mesmo tempo um, “instruir”. Algo é objeto de νοεῖν de quando se aprende direta e infalivelmente tal e qual é. Para Parmênides, esta apreensão direta e infalível do que é, como é, quando se identifica com o ser, segundo se expressa a famosa tese:  το γαρ αυτό νοεῖν ἔστιν τε καὶ είναι, que se traduz a míude, é o mesmo que pensar no ser. Para que algo seja objeto de νοεῖν é preciso que seja inteligível. O substantivo correspondente a νοεῖν, “nous”. “Nous” de Aristóteles, designa como a doutrina da inteligência (do intelecto, do entendimento).

Há que encontrar o "resíduo fenomenológico" fruto de uma "redução radical de toda a transcendência que liberta a essência subjacente da subjetividade" (p. 15),  da qual resulta para o autor a própria fenomenologia material chamando-se a atenção para a "estranha indecisão" de Husserl acerca do lugar próprio para tematizar sistematicamente a clivagem entre a matéria e a forma.

Existe neste conjunto de ensaios um constante retorno à obra de Husserl, citando-o sistematicamente de modo a deixar transparecer, nessas citações, as "estranhas indecisões", "absurdos", "aporias", incompletude completudes, incertezas e contrariedades no pensamento deste grande gênio da filosofia. Mas o autor admite, apesar de tudo, que alguns dos problemas por si levantados não o seriam para Husserl, nomeadamente o "problema fundamental da unidade intra-consciencial dos componentes hiléticos e intencionais do vivido", na sua relação com a subjetividade absoluta (p. 18), este primeiro ensaio vive essencialmente de uma tremenda crítica (construtiva) ao filósofo. Por outro lado, M. Henry, num estilo muito próximo do de Husserl, e com uma linguagem clara e objetivo (tanto quanto o próprio texto husserliano o permite!), vai aproveitando o modo como este torneará muitas das questões levantadas e supostamente sem resolução.

O esforço brutal da fenomenologia husserliana, brutal porque "inconsciente", teria sido a interpretação do "poder da revelação do impressional e do afetivo como tal" (p.22) na sua relação com a intencionalidade (já que a afetividade fundadora é a atividade intencional).

Com efeito, toda a relação entre a data das sensações (que a fenomenologia hilética tematiza) e a descrição dos diversos tipos de noeses e de noemas que correspondem aos modos essenciais da fenomenologia transcendental (intencional), é desenvolvida nesta obra segundo uma conexão e coerência expositivas possíveis, se tomarmos em linha de conta que o tratamento das realidades que a compõem tenta superar a dificuldade de uma exposição fragmentada, embora, no seu todo, constituam o assunto de trabalho deste professor da Universidade Paul Valéry, em Montpellier.

As “Ideen I”, teriam deixado por resolver a questão de como as data das sensações são eles mesmos dados (p.27). E isso pela "incontestável depreciação" dada ao conceito de ulh e à própria fenomenologia hilética. Para semelhante problemática seria considerada necessária uma reflexão acerca das "profundezas da última consciência que constitui o tempo", nas palavras de Husserl (p.30).

As Lições de 1905, sobre a questão do tempo, "e sem dúvida o mais belo texto da filosofia deste século" (p.31), pretenderão alcançar, num gigantesco esforço, uma filosofia da arqui-constituição, correndo no entanto o risco de perder o "Essencial" e a própria fenomenologia hilética. Será a propósito do tempo que a fenomenologia husserliana irá conhecer, em presença da Impressão, o seu mais espetacular e decisivo prejuízo. De fato, o princípio que faz ver ou revela originalmente a intencionalidade a ela mesma é a própria impressão. Daí a hilética ser tão necessária como a própria fenomenologia, já que a primeira não poderá tão-só reduzir-se a uma mera disciplina ôntica subordinada à fenomenologia transcendental - "a consciência é impressional": eis a tese que demonstra bem que a consciência se encontra impressionalmente afetada e que é ela mesma a impressão, isto é, a fenomenalidade pura como tal.

M. Henry quer denunciar a "ambigüidade intrínseca desta consciência originária" (p.35) que, não obstante ser uma impressão, não é esta que a realiza, pois, é a própria percepção que o faz, que dá o sendo, realmente (p.36 e ss.). Assim nos surge (ironicamente...) a necessidade de certa falibilidade ou nadificação ontológica da consciência originária, que as Lições tentaram esconjurar. Eis o que nos leva a uma das aporias husserlianas, já que a fenomenologia do tempo é, precisamente, uma fenomenologia da impressão. E toda a ulterior fenomenologia não dirá alguma coisa mais: toda a arqui-presença, enquanto arqui-revelação, se realiza enquanto impressão: é a "fonte originária de toda a consciência e de todo o ser" (citando Husserl, p. 47). Segundo o autor esta última questão parcial faz ver o "gênio de Husserl", ao perceber as dificuldades internas do seu pensamento.

Resta-nos a essência, quando a sensação originária foge. Resta-nos a "auto-afecção da vida" (vida da consciência intencional portanto). A temática da vida (p. 54 e ss.) será retomada no último estudo, nomeadamente na Parte 2: "Para uma fenomenologia da comunidade". O continuum da vida é o pathos da vida, a sua "carne". Conclui Michel Henry: “‘Matéria’, para a fenomenologia material compreendida na sua oposição decisiva à hilética, nada indica mais da fenomenalidade do que a sua essência. É deste modo que a fenomenologia material é a fenomenologia no sentido radical [...]" (p. 58).

MÉTODO FENOMENOLÓGICO

Edmund Husserl
 B – O segundo estudo desta obra, "O método fenomenológico", mantém o tom crítico-construtivo anteriormente anunciado. Tomando como texto de referência as Lições de 1905, proferidas por Husserl na Universidade de Götinggen, a questão orientadora é a seguinte: até que ponto os conceitos de método e de fenomenologia se devem associar?

Aproximando-se Husserl de Descartes pretende o autor recuperar o espírito husserliano de rejeição de toda a tradição, projetado a fundação do conhecimento. 

A esta questões, nos é impossível responder neste momento. Se fazemos retorno à fenomenologia histórica, compreendemos porque. Precisamente porque ela deixou indeterminadas as pressuposições fenomenológicas sobre as quais ela repousa. Porque o aparecer em direção ao qual convergem tais pressuposições não foi objeto de uma elucidação levada até o final. Do que necessita, é de um desnudar daquilo que, no aparecer, chamamos sua matéria fenomenológica pura ou ainda sua carne incandescente, aquilo que nele brilha ou incandesce. Ou todavia esta matéria incandescente não se presta a nenhum "desnudar", a nenhuma "evidência" - ao "ver" de nenhum pensamento?
 
No entanto, fundar o conhecimento é um objetivo que se delimita num círculo (vicioso), já que cada fundação é ela própria um conhecimento (duvidoso). Mas Husserl ter-se-á libertado desta aporia recorrendo ao argumento cartesiano da dúvida que não permite duvidar dela mesma. Partindo da "visão pura" ["vue pure"] do cogitatio, que lhe permite à partida ser um dado absoluto, M. Henry anuncia a absurdez dessas cogitatio real: "ela apenas é na medida em que é submetido a um olhar, a um ato de ver puro" (p.64), o que a torna dependente não dela própria mas de outro que a dá puramente. Esta absurdez determina por sua vez outra aporia que remete o puro ato de ver para o mesmo estatuto que a própria cogitatio, identificando-os.

Doutro modo, "como fundar a existência da cogitatio a partir de seus dados em pessoa numa visão pura, se esta última pressupõe esta existência prévia do cogitatio?" (p.66).

Daqui resultaria uma série de erros dos quais M. Henry considera a fenomenologia histórica uma vítima, principalmente pelo seu recurso a Descartes, na "aberrante" interpretação de que o cogito é a primeira evidência pura; o que conduz a outro erro histórico, ao erro fundamental de Husserl: ao ter deslocado a cogitatio para o campo do "olhar do pensamento" ["regard de la pensée"] fê-la com isso desaparecer em vez de a transformar num dado absoluto. Mais, Husserl confundirá ainda o ver e o visto e a própria cogitatio, que nenhuma relação tem com os dois, a primeira "omissão teórica" das Lições (p. 68).

A crítica completa-se pelo recurso ao “§ 7 de Sein und Zeit”, quando admite que a condição para que algo seja “fenômeno-objeto” de tratamento fenomenológico é, precisamente, "algo que não se mostra", permitindo perceber que o processo de pensamento não se pode tomar pelo processo da realidade. O próprio Husserl se terá interrogado sobre a possibilidade de uma reflexão sobre a redução, sobre o fenômeno puro reduzido. Com efeito, a própria reflexão só é possível pela retenção o dado é o pré-dado: o que se "vê" encontra-se "lá já" para se poder abrir a um eventual olhar (p.71).

São estas dificuldades que originam uma "perversão dos conceitos fundamentais da fenomenologia", por exemplo, o conceito de imanência (da cogitatio) que Descartes pensa sob o nome de idéia; a donação de si ("selbstgegebenheit"); ou a ipseidade.

Mas o filósofo "foi mais longe que todos os outros autores contemporâneos" (p. 75), pois nunca duvidou que a cogitatio tinha uma realidade própria, mesmo que algo indeterminado: a realidade do "reell"4, o que remete o ser para uma subjetividade absoluta.

Mas no nosso ponto de vista, a mensagem subjetiva de Michel Henry é a seguinte: a subjetividades absoluta de uma vida invisível da consciência que faz o fenômeno ser um subjectum "retirado de" (absolutum) o real... Já que, socorrendo-se de outros autores e idéias subjacentes, M. Henry aplaude ostensivamente a viragem temática das Lições, quando Husserl renuncia a uma "pretensão ontológica ultima de dar o ser" (p.81). Resta saber, digamos assim, se Husserl tinha tal pretensão e se a tinha até que ponto, com que conseqüências? Por outro lado, a questão das essências (platônicas) está de fato subentendida no texto de M. Henry, talvez por, e faça-se justiça, ela estar também subrepticiamente admitida nos próprios textos husserlianos, coisa que Husserl talvez não tivesse conscientemente admitido mas da qual tirou dividendos para a fase mais idealista do seu pensamento.

Por isso se compreende afirmações como a seguinte: "As coisas, antes da mutação temática, são as cogitationes, depois, são as suas essências." (p. 88).

Mas como é que a essência é dada?! É dada como o olhar da intencionalidade que se dirige sobre o objeto. Mas o erro mantém-se: como já vimos, não existe alguma associação entre o ato de ver puro e a cogitatio mas, muito pelo contrário, e respectivamente, uma dissociação radical entre a doação e o dado. Tal casamento visão pura/cogitatio apenas possuiria uma significação histórica.

E por encadeamento lógico surge agora a problemática da transcendência. Aquilo que a define é o conteúdo do ato de ver puro. Daí a transposição do sentido da própria redução: já não é uma redução à imanência mas à transcendência - o que para M. Henry, revela, mais uma vez (!), o "instinto genial" de Husserl para ultrapassar as dificuldades do seu pensamento (p.97).

Substitui-se então a cogitatio singular pela essência genérica. A cogitatio não pode ser vista ela mesma tal qual é na sua imanência. Há que relegar para segundo plano a realidade da cogitatio. A conclusão é simples: o método fenomenológico substitui ("por instinto") a vida transcendental pela sua essência, já que a primeira não é passível de um ato de ver puro; falta agora cumprir a teoria das essências genéricas pelo desenvolvimento da redução, que permite a Assumpção de qualquer objeto (fictício, absurdo, etc.) ser dado com evidência.

Será então possível renovar o método fenomenológico e a fenomenologia, agora que o dado em pessoa da cogitatio está desfeito (p. 105). Em última instância haverá que socorrer-se, mais uma vez, de Heidegger, com o seu famoso Seminário de Zäringhen: a já histórica colocação entre parêntesis da própria consciência, pois Husserl não terá resolvido o problema de como explicar o modo de aparecer do "referir-se a" da cogitatio.

Finalmente é retomado o “§ 7 de Sein und Zeit”, o que permite a ligação do método fenomenológico à fenomenalidade grega, ao "horizonte do ser" fazendo-se a economia da redução e rejeitando a imanência da consciência apresentando deste modo o problema fundamental da fenomenologia e da ontologia, a vida. As várias alíneas deste famoso parágrafo são analisadas por M. Henry, com o intuito de mostrar que o conceito de fenomenologia deve ser tomado no seu "sentido puramente metodológico" enquanto fenomenologia descritiva da mostração direta de qualquer processo de pensamento, como o científico por exemplo (p.119). Por conseguinte, torna-se evidente a identidade da essência do fenômeno e da sua descrição, retomando-se a questão crucial do presente estudo: a identidade do objeto da fenomenologia e do seu método.

Finalmente a última aporia sob a qual se constrói o método: como é possível uma filosofia da afetividade? - assunto discutido pela primeira vez nas Lições, a quando da conexão entre a fenomenologia e a fenomenalidade pura e original da vida, algo que para o autor a fenomenologia histórica nunca desenvolveu (apesar de, dizemos nós, a última fase do pensamento husserliano se ter dedicado à temática da Lebenswelt!). O que Michel Henry não admite é que o pathos seja uma significação vazia na essência noética da cogitatio (p. 126). Também não tolera que o correlato noemático seja irreal porque posto fora da vida, não se deixando esta constituir, nesta ordem de idéias, como vida real adentro de uma dimensão ontológica específica. É então necessário conceptualizar a "visão pura" como uma modalidade da vida segundo uma auto-afecção, já que toda a realidade possível (a natureza; o "Outro"; D-us; etc.) recebe a sua efetividade de um ser situado na "Vida"), porque é que o autor utiliza as maiúsculas?!... O "Dizer" é auto-revelação patética da subjetividade absoluta. O "Verbo" que veio ao mundo é já uma indireta dimensão teosófica digamos assim (Henry recorre a autores como Jacob Boehme...), não é o verbo grego mas a "vida escondida"! (p. 131).

Ambiguamente, este texto termina com uma referência a Marx a propósito do "trabalho vivo" e da realidade econômica, e um louvor ao método fenomenológico como verdadeiro exegeta da "inteligência do mundo"...

O OUTRO

C– O terceiro estudo desta obra, "Pathos-com", que agrupa dois textos independentes, revela mais diretamente ao leitor o pensamento de Michel Henry relativamente a uma teoria da comunidade.

O primeiro texto nasce a partir de uma reflexão sobre a Quinta Meditação Cartesiana e explora a questão do outro: como me é dado o outro na minha experiência? O autor anuncia várias proposições e trata-as sistematicamente cada uma por si. Resumindo, de igual modo, a análise husserliana da experiência do outro, que "não consiste numa simples aplicação do esquema de emparelhamento associativo obtido por empréstimo ao universo da percepção" (p. 150) - avança com uma problemática fundamental (dividida por três etapas interrogativas), a saber, como explicar que o objecto não é dado ele mesmo uma vez que não é presentado mas representado (por conseguinte, é sempre outro)?

E se diferenciar a "experiência específica do outro" da "experiência perceptiva ordinária", como considerar uma experiência do outro onde a percepção não têm nenhum papel?

Citando ou parafraseando pensamentos de Kandinsky, Kierkegaard, Leibniz, Kafka, Rilke, julga Michel Henry esclarecer a problemática husserliana da Quinta Meditação: a possibilidade de que a percepção não funda mas pressupõe uma raiz na vida transcendental donde o ego nasce, num "Fundo" próprio. E alguns textos inéditos recolhidos nos três volumes da Husserliana consagrados ao problema da intersubjetividade, são ligeiramente referidos como pista de trabalho.

O segundo texto desta terceira e última parte de Phénoménologie Matérielle de Michel Henry, surpreende um pouco pela positiva o leitor, com uma interessante e original reflexão consagrada à comunidade, partindo de pressupostos fenomenológicos. À guisa de sumário são apresentadas quatro questões de trabalho que podem resumir-se, numa média temática por assim dizer, no seguinte: o que é a realidade que "é" em comum numa comunidade e como se dá ela aos seus membros?

A essência da comunidade é a vida. Por sua vez, a vida define-se como "auto-donação num sentido radical e rigoroso, neste sentido em que é ela que dá e que é dada" (p.161). E nós, subjetividade absolutas, fazemos parte desses “dons" (!). Por seu lado, a ipseidade constituir-se-á enquanto algo de real, afetivamente real: a identidade do afectante e do afetado - não uma essência ideal ou correlato de uma intenção eidética. Em suma, a subjetividade é o principium individuationis. Na verdade, qualquer sistema político que queira anular o indivíduo numa totalidade é uma mera abstração. O indivíduo é o modo próprio de "atualização fenomenológica" da vida.

O "grande mistério" é saber explicar o porquê da intencionalidade "perceber o que se mostra no mundo como sendo um ego e lhe conferir o sentido de ser tal" (p. 165). A filosofia ocidental, polemiza o autor, pouco disse sobre os membros da comunidade, nomeadamente a partir do momento em que a metafísica moderna se centrou na representação: "eu represento algo como eu, como o meu eu ou como o teu. Por que aquilo que é posto à frente é meu ou teu?" Nada se sabe... segundo M. Henry - talvez a categoria de um tu absoluto resolvesse o (suposto) problema!?...

Socorrendo-se ecleticamente de autores como Kant, Scheler, Nietzsche, Freud, este professor pretende construir uma grelha fenomenológica base para interpretação do fenômeno da comunidade. Com Scheler, por exemplo, descobre-se uma "minúscula nuance" em relação a Husserl: foi Scheler que deu um sentido mais radical à fenomenologia do "Da-sein" como "Mit-sein", porque lhe conferiu o verdadeiro sentido patético. Foi Scheler que, contrariamente a Husserl, de modo inaudito realizou uma percepção “stricto sensu” da realidade psíquica: conceitualizou que ao se perceber o "corpo do outro" se percebe igualmente o "seu psiquismo" (p.169). E ainda a título exemplificativo, com a psicanálise do inconsciente freudiano (daquilo que se encontra fora da experiência e como tal nada é), com exemplos muito ligeiramente tratados (como a hipnose; as nefroses de transfert; as associações; etc.), pretende-se transmitir a idéia de um complexo processo de formação da comunidade humana, de que o "inconsciente" freudiano (assim como também o "animal" de Nietzsche) se mostra apenas como etapas.

A essência da comunidade confere-se a partir da imediação. A sua essência é a afetividade, o sofrer - com: é o "pathos-com" que cumpre a forma mais excelente de toda a comunidade possível. Numa bela frase do autor: "como um destino de pulsões e de afetos".

NOTAS

1. Relembremos que o § 85 de Ideen I, de Husserl, intitulado hylé (sensual), morphê intencional", apresenta a caracterização da hylé enquanto constante dos objetos na consciência do mesmo modo que a intencionalidade os movimenta. A hilética estará para a noética como a matéria para a forma. Num sentido mais radi-
cal a hylé corresponde à Urkonstitution do eu (à consciência do tempo portanto).

2. O § 86 de Ideen I, de Husserl, intitulado "Os problemas funcionais", trata da inseparabilidade dos aspectos noemáticos e funcionais da própria fenomenologia: a função, algo de absolutamente original, é fundada na essência pura das noeses.

3. O § 97 da mesma obra de Husserl, intitulado "Que os momentos hiléticos e noéticos são momentos reais do vivido, e os momentos noemáticos não-reais", explora, de modo mais sistemático, toda a dialética existente entre a hylé e o noema.

4. Neste caso teríamos, inclusive, de refletir, partindo de Husserl, acerca do valor que, para a teoria do conhecimento, a própria objetualidade possui. Pois, "do ponto de vista fenomenológico real (reell) [isto é, o conteúdo da consciência na sua imanência (o efetivamente vivido), diferentemente do termo alemão «real», isto é, a transcendência própria à coisa ou à realidade] a objectualidade ela mesma, nada é", embora seja "transcendente ao ato", "Für die reell phänomenologische Betrachtung ist die Gegenständlichkeit selbst nichts; sie ist ja, allgemein zu reden, dem Akte transzendent" (Logische Untersuchungen, V, § 20, p. 427).

De fato, para a fenomenologia pouco importa a idealidade, a verdade, a realidade (natural), a possibilidade ou a impossibilidade da objectualidade, conquanto que se admita que é "sobre ela que o ato é dirigido" (id. ibid.).

O FILÓSOFO

segunda-feira, 28 de março de 2011

QUEM SOMOS? PRA QUE SERVE A FILOSOFIA?

O Pensador
O QUE NÓS SOMOS? O que são os eventos a nossa volta? Pode­mos confiar neles? O que é a existência e a extinção? Como ser um bem-aventurado? Existe a veracidade? O que é judicioso, o que é inconveniente? Interrogação co­mo essas seguem a filantropia desde seus primórdios e tão cedo não a desistirá. Todo mundo já se fez, algum dia, interrogações desse tipo, para as quais as respostas nunca são simples. Mas então por que nos fazemos essas perguntas? Também é difícil saber.

Seja como for, deve ter sido dessa natureza questionadora dos homens que a Filosofia nasceu. Questionamento que é ainda hoje sua marca mais forte. Para a Filosofia, as indaga­ções são bem mais importantes que as respostas. Ela é, priori­tariamente, uma pergunta.

Baruch Spinoza
É esse o espírito que buscamos para este blog filosófico: sempre daremos poucas respostas do que promover interrogação sobre nós mesmos e o mundo que nos cerca. Por isso em alguns de nossos artigos privilegiamos e dedicamos a um dos maiores filósofos do último século, Baruch Spinoza, entre os que mais se dedicaram a refletir sobre a condição do ho­mem no mundo. E que tal um trajetória pelos momentos de alguns fun­dadores da ética, disciplina cuja importância não pára de crescer nos dias que correm? Bento de Espinozaברוך שפינוזה, transl. Baruch Spinoza) foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Nasceu em Amsterdã, nos Países Baixos, no seio de uma família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. (também Benedito Espinoza; em hebraico:

Além disso, vale a pena saber o que um filósofo clássico, Leibniz, pensava acerca de nossa res­ponsabilidade sobre nossos atos.

Leibniz
E como ficam essa responsabilidade e nossa liberdade depois que Freud descobriu outro ser dentro de nós mesmos, o in­consciente? Você também encontrará interrogações sobre o ensino de Filosofia, esporemos alguns detalhes sobre a história da filosofia nos artigos elaborados pelo professor Carlos P. Macedo. Meus alunos, outros alunos, internautas e interessados na filosofia, conhecerá os trabalhos do Laboratório de Estudos da Intolerância, da violência, do amor, do sentimento, da atual situação caótica do mundo, de onde viemos para onde vamos,  e muito mais. Claro, não poderia faltar aquela que é a pergunta mais comum quando se fala em Filosofia: afinal, para que ela serve?

Leibniz
 Perguntar sobre a utilidade das coisas é uma mania de nossa cultura. No caso em questão, a resposta pode surpreender.
Fique tranqüilo porque tenho a intenção de responder o mais honestamente a essa questão paciência. É que, para dizer para que serve afilosofia, pre­cisamos usar a filosofia, e sem a tal paciência isso dificilmente ocorre. Queria, antes, que você pensasse comigo a respeito da seguinte questão: o que é uma coisa quando ela serve para algo? Um martelo é um instrumento usado na fixação de pregos. 

FILOSOFIA
 Uma auto-estrada é um meio pelo qual pessoas e mercadorias podem se locomo­ver numa cidade ou entre cidades. Quando, portanto, perguntamos para que serve a filosofia, temos uma série de noções guardadas em silêncio a respeito dela e do mundo. Acontece que, se essas noções são corretas na maioria dos casos, talvez não sejam no que se refere à filo­sofia. Talvez exatamente por isso é que não encontramos com facili­dade a resposta certa para a bendita pergunta. E que noções são essas?

Quando perguntamos para que serve a filosofia supomos que ela seja um instrumento, como um martelo, ou que seja um meio, como a auto-estrada. Sabemos que sem o martelo o marceneiro pouco pode fazer em seu trabalho.

FILOSOFIA DA ESTRADA
Do mesmo modo, sem auto-estradas a cidade se tornaria um caos. Dizemos, então, que o martelo é importante para o serviço de marcenaria. Que a auto-estrada é importante para a ordem urbana e o progresso do país. Guardamos em silêncio, portanto, a idéia de que a importância de algo se mede por sua utilidade. Por isso não perguntamos, simplesmente, qual a importância da filosofia. Cortamos o caminho e ganhamos tempo indagando logo para que serve, qual sua utilidade. O erro que há nisso é pensar que a filosofia possa mesmo servir...

 Então não serve? Vamos com cal­ma. As perguntas que fazemos nun­ca nascem do nada, não estão pron­tas desde toda a eternidade. Por isso, jamais são tão inocentes quanto, por vezes, parecem. Perguntas são mo­dos de falar. Falar é um modo de relacionar-se com o mundo. É por­que vivemos desta e não de outra maneira porque fazemos essa e não ou­tra pergunta. Poderíamos até contar a história de todos os povos a partir do recenseamento das questões que eles se colocaram. 

Auto-estrada  e a filosofia
 história, decer­to, é o conjunto das providências to­madas pelos homens para atender às suas necessidades. Mas a história é também o conjunto das invenções de novas necessidades. Houve um momento em que as pedras já não mais satisfaziam todo o interesse de quem escrevia, e então alguém se perguntou se não seria possível es­crever sobre outras superfícies. Essa pergunta, note, não teria cabimento se já não estivéssemos dentro de uma forma de vida da qual fazia parte o ofício de escrever. Assim, vale a pena nos indagar sobre que forma de vida é essa nossa que nos faz jul­gar necessária a pergunta "para que serve a filosofia?"
CULTURA UTILITÁRIA
Seria o caso de perguntar por que, diante de algo que não conhecemos ou conhecemos pouco, pen­samos que saberíamos mais se sou­béssemos para que serve esta coisa? Se não estou enganado, isso ocorre porque vivemos numa civilização na qual o conhecimento é produzi­do de modo a privilegiar sua utiliza­ção.

Se na física, por exemplo, os co­nhecimentos são produzidos em condições que, de uma maneira ou de outra, acabam tendo uma utilidade prática, então é lícito questio­nar para que servem os conheci­mentos produzidos pela filosofia se é que se pode chamar de conhe­cimento o que ela produz! Mas será que pensamos desse modo de uma hora para outra? Qual o processo histórico que nos ensina que é as­sim que devemos pensar?

O processo histórico que nos deixou na situação de olhar para al­go sempre em vista de saber sua uti­lidade foi produzido sob certa noção de racionalidade. A racionalidade é o modo como traçamos a relação entre nossa inteligência e o mundo. Julgamos que seríamos tanto mais o inteligente quanto mais dominássemos as forças da natureza.

Sob esse pretexto, esse empreendimento se tornou, ao longo do tempo, a for­ma mais cruel de depredação. Pen­sar era, nesse contexto, tomar provi­dências para tirar o máximo de pro­veito dos recursos naturais, sem a menor preocupação em sarar as fe­ridas que essa extração provocava no meio ambiente. Uma delas é o superaquecimento da Terra, uma ameaça que põe em risco o futuro da humanidade.

Mas não é só. Co­mo alguém já disse, a primeira coisa que o homem tocou para dominar foi à mulher. Ou seja, seu semelhan­te. E quando pensamos que a busca da dominação do meio externo exa­cerba-se na dominação da natureza interna do homem (seu SER), logo começamos a entender eventos co­muns em nossos dias, como a vio­lência, . Eventos que atrapalham a possibilidade de uma forma de vida passível de ser chamada de feliz. A felicidade ultrapassa toda noção de utilidade porque é um bem em si: ninguém quer ser feliz para outra coisa, ser feliz não serve para al­cançar algo mais além. Mas a cul­tura utilitária de nossa civilização deturpa a idéia de felicidade, e nos faz pensar que seremos tanto mais felizes quanto mais soubermos uti­lizar as pessoas, como o primeiro homem utilizou a mulher, e os filhos e os mais fracos, para destruir a na­tureza e a nós mesmos depois.

 
EXERCÍCIO DE LIBERDADE

É, pois, porque vivemos numa civilização das vantagens (sobre a in­felicidade alheia) que somos levados a perguntar para que serve isso e aquilo e também a filosofia.

Jogare­mos fora, então, a pergunta? Dire­mos, então, que a filosofia tem a ver, como tem, com certo exercício de li­berdade? Que a filosofia, toda vez que serve, deixa de ser filosofia, por­que abandona sua liberdade? Que, neste sentido, a filosofia não serve a ninguém nem a nada? Diremos que a filosofia é uma forma de felicidade? É possível.

Mas o leitor que chegou até aqui está longe de ser tolo, e pode perfeitamente retrucar: não pergun­tei a quem serve a filosofia, ou a quê, mas o que posso fazer com ela e, se não posso fazer nada com ela, o que ela pode fazer comigo.

Digamos, en­tão, que a filosofia, como exercício de liberdade, pode nos ajudar a nos livrar de saberes preconcebidos, acei­tos sem questionamentos, e que, exa­tamente por não terem sido discuti­dos, impedem a possibilidade de nos relacionarmos de uma forma dife­rente com o mundo.

Assim concebida, a filosofia não é bem um saber que possamos uti­lizar aqui ou ali. É, isto sim, um fa­zer (uma forma de pensar) que nos ajuda a escolher que saberes podem (para o bem ou para o mal) uti­lizar, seja em que circunstância for. Se, ainda assim, você quiser pensar na filosofia como um instrumento, digamos que ela seria uma espécie de "desconfiômetro", uma peça de nossa inteligência utilizada para não engolirmos a primeira certeza que nos oferecerem como sendo uma verdade indiscutível. Serve, por exemplo, para nos estimular a suspeitar de que a importância de algo está em sua utilidade, e assim descobrirmos que é porque não é útil que a filosofia é importante.

Quando aprendemos a pensar para além do modo como nos ensi­naram que seria o certo, quando duvidamos de nossas certezas abso­lutas, quando não abrimos mão de nossa liberdade e quando indaga­mos se isso que chamamos "nossa liberdade" é mesmo uma liberdade pode ficar em alerta porque esta­mos pondo para funcionar o des­confiômetro da filosofia. Estamos começando a filosofar.

É isso e muito mais que você, leitor, descobrirá neste blog feito pra você. Esperamos que você leia, sugira, es­creva. Mas, sobretudo, desejamos que tudo o que está publi­cado lhe sirva de inspiração para novas indagações e questionamentos. Ou seja, para a vivência da Filosofia.
Um abraço, O FILÓSOFO

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O QUE É FILOSOFIA?


Não necessitamos esquadrinhar no infinito das autoridade da "filos." , quem sabe um para todo articulista de judicioso procedimento, e que à vagueza das formulações adicionam às vezes até costume conflitante, não necessitamos esquadrinhar aí a precariedade e ambigüidade que governa e, principalmente em nossos dias, no que dizer a respeito ao componente da reflexão filosófica. Muito mais elucidativo é a sabedoria aos, documento filosóficos ou alguma conferência ou check-up do adiantamento histórico do contexto. De tudo que se aborda,  a competência ou dizer, ou se tem combinado na "Filosofia", e até os próprios argumento, ou visivelmente os próprio, são ponderados em perspectivas de tal modo a arredar uma das outras que não se ajustam e nem se entrosam entre si, contornam-se e fica impossível contrastá-las. Para determinado, essa circunstância é não apenas habitual, mas de modo pleno e  justificável.
A Filosofia seria isso mesmo: uma especulação infinita e desregrada em torno de qualquer assunto ou questão, ao sabor de cada autor, de suas preferências e mesmo de seus humores. Há mesmo quem afirme não caber à Filosofia "resolver", e sim unicamente sugerir questões e propor problemas, fazer perguntas cujas respostas não têm maior importância, e com o fim unicamente de estimular a reflexão, aguçar a curiosidade. E já se afirmou até que a Filosofia não passava de uma "ginástica" do pensamento, entendendo por isso o simples exercício e adestramento de uma função, no caso, o pensamento em vez dos músculos , sem outra finalidade que essa.

 Apesar, contudo, de boa parte da especulação filosófica, particularmente em nossos dias, parecer confirmar tal ponto de vista, ele certamente não é verdadeiro. Há sem dúvida um terreno comum onde a Filosofia, ou aquilo que se tem entendido como tal, se confunde com a literatura (no bom sentido, entenda-se bem) e não objetiva realmente conclusão alguma, destinando-se tão somente, como toda literatura, a par do entretenimento que proporciona, levar aos leitores ou ouvintes, a partir destes centros condensadores da consciência coletiva que são os profissionais do pensamento, levar-lhes impressões e estados de espírito, emoções e estímulos, dúvidas e indagações. Mas esse terreno que a Filosofia, ou pelo menos aquilo que se tem entendido por "Filosofia", compartilha com a literatura, não é toda Filosofia, nem mesmo, de certo modo, a sua mais importante e principal parte. E nem ao menos, a meu ver, com todo interesse que possa representar, constitui propriamente "Filosofia", e deveria antes se confundir, na classificação, e às vezes até mesmo na designação, com a mesma literatura com que já apresenta tantas afinidades.

 Mas conserve embora a Filosofia literária sua qualificação e status, é necessário que a par dela e com ela se desenvolva também uma Filosofia de outro teor que dê resposta, e na medida do possível, precisa, às questões que efetivamente nela se propõem. A Filosofia pode a rigor ser tratada literariamente, como pode sê-lo a Ciência e o conhecimento em geral. Mas que isso seja forma, e não fundo. Esse fundo é outra coisa que, apesar de tudo, se percebe em todo verdadeiro filósofo, por mais que se disfarce num pensamento confuso, disperso, sem objetivo desde logo aparente e seguro. Que se percebe sobretudo na Filosofia em conjunto como maneira específica de tratar dos assuntos de que se ocupa, por mais variados e díspares que sejam. Com toda sua heterogeneidade, confusão e hermetismo de tantos de seus textos vazados em linguagem acessível unicamente a iniciados,ou antes, por eles julgados acessíveis, mais do que acessíveis de fato , com tudo isso, a Filosofia encontra ressonância tal que, se não fosse outro o motivo, já por si bastaria para comprovar que nela se abrigam questões que dizem muito de perto com interesses e aspirações humanas que devem, por isso, ser atendidos, e não frustrados pela ausência ou desconhecimento de objetivo e rumo seguros da parte daqueles que se ocupam do assunto.

 Mas onde encontrar esse "objeto" último e profundo da especulação filosófica para o qual converge e onde se concentra a variegada problemática de que a Filosofia vem através dos séculos e em todos os lugares se ocupando; e de que trata ? E muito importante determiná-lo, porque isso pouparia esforços que tão freqüentemente se perdem em indagações inúteis ou mel propostas; e que, concentrados na direção de um alvo legítimo e claramente definido, reuniriam um máximo de probabilidades de atingirem esse alvo, ou pelo menos de o aproximarem. Existirá contudo esse objeto central e legítimo de toda a especulação filosófica, um denominador comum que embora disfarçado e mal explícito, orienta mais ou menos inconscientemente aquela especulação? Acredito que sim, e a sua determinação constitui tarefa necessária e preliminar da indagação filosófica; e, certamente, mesmo que não chegue logo a uma precisão rigorosa (se é que ela é possível), será por certo de resultados altamente fecundos.

 O ponto de partida dessa determinação deve ser, para nada perder em objetividade, a consideração e exame do próprio conteúdo e desenvolvimento daquilo que se tem por pesquisa filosófica e do Conhecimento em geral. Mais comumente a Filosofia é tida como uma complementação da Ciência e da elaboração cognitiva em geral; como seu coroamento e síntese. Esse conceito da Filosofia se encontra aliás mais ou menos expressamente formulado em boa parte das definições e explicações que dela se dão, e partidas dos mais afastados e mesmo antagônicos quadrantes. Até mesmo o séc. XVIII, e talvez o seguinte, Filosofia ainda se confundia com Ciência; e das filosofias particulares (como por exemplo a "filosofia química", que não é senão a nossa Química, simplesmente) passava-se imperceptivelmente para assuntos gerais que se enquadrariam melhor naquilo que hoje entenderíamos mais especificamente como "Filosofia".

ÉTICA


Ética (do grego ethos, que significa modo de ser, caráter, comportamento) é o ramo da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade. Diferencia-se da moral, pois enquanto esta se fundamenta na obediência a normas, tabus, costumes ou mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos recebidos, a ética, ao contrário, busca fundamentar o bom modo de viver pelo pensamento humano.
Na filosofia clássica, a ética não se resume ao estudo da moral (entendida como "costume", do latim mos, mores), mas a todo o campo do conhecimento que não é abrangido na física, metafísica, estética, na lógica e nem na retórica. Assim, a ética abrangia os campos que atualmente são denominados antropologia, psicologia, sociologia, economia, pedagogia, educação física, dietética e até mesmo política, em suma, campos direta ou indiretamente ligados a maneiras de viver.

Porém, com a crescente profissionalização e especialização do conhecimento que se seguiu à revolução industrial, a maioria dos campos que eram objeto de estudo da filosofia, particularmente da ética, foram estabelecidos como disciplinas científicas independentes. Assim, é comum que atualmente a ética seja definida como "a área da filosofia que se ocupa do estudo das normas morais nas sociedades humanas" e busca explicar e justificar os costumes de um determinado agrupamento humano, bem como fornecer subsídios para a solução de seus dilemas mais comuns. Neste sentido, ética pode ser definida como a ciência que estuda a conduta humana e a moral é a qualidade desta conduta, quando julga-se do ponto de vista do Bem e do Mal.

A ética também não deve ser confundida com a LEI, embora com certa freqüência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a questões abrangidas no escopo da ética.
Hoje em dia, a maioria das profissões têm o seu próprio código de ética profissional, que é um conjunto de normas de cumprimento obrigatório, derivadas da ética, e que por ser um código escrito e freqüentemente incorporados à lei pública não deveria se chamar de "código de ética" e sim "Legislação da Profissão". Nesses casos, os princípios éticos passam a ter força de lei; note-se que, mesmo nos casos em que esses códigos não estão incorporados à lei, seu estudo tem alta probabilidade de exercer influência, por exemplo, em julgamentos nos quais se discutam fatos relativos à conduta profissional. Ademais, o seu não cumprimento pode resultar em sanções executadas pela sociedade profissional, como censura pública e suspensão temporária ou definitiva do direito de exercer a profissão, situações essas algumas vezes revertidas pela justiça comum, principalmente quando os "códigos de ética" de certas profissões apresentam viés que contraria a lei ordinária.
ESCOLA FILÓSOFICA GREGA - ACROPOLE, ATENAS - GRÉCIA

CRONOLOGIA FILOSÓFICA


FILOSOFIA ANTIGA

TEMPLO DA COLÍNA DO CÉU (ZEUS) - ACROPOLE, ATENAS

Zoroastro (ou Zaratustra) funda o zoroastrismo na Pérsia
Nascem Tales de Mileto e Anaximandro
600 a. C.
Eclipse solar, alegadamente previsto por Tales
Nasce Pitágoras
Nasce Buda
Nasce Confúcio
Nasce Heráclito
Lao Tse funda o Taoísmo
Nasce Parmênides
500 a. C.
Nascem Anaxágoras e Zenão de Eléia
Nasce o escultor e arquiteto Fídias, um dos autores do Parténon de Atenas
Nasce Protágoras
Nasce Sófocles, autor de tragédias
Nasce Sócrates no ano de 470
Guerra dos gregos contra a Pérsia
Começa o governo de Péricles em Atenas
Nasce Demócrito
Nasce Hipócrates, o pai da medicina
A construção do Parténon é concluída
Morre Péricles
Nasce Platão em 429
Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta
Aristófanes escreve As Núvens
400 a. C.
Morte de Sócrates em 399
Platão funda a Academia em 387
Nasce Aristóteles em 384
Nasce Pirro de Élis, pai do cepticismo
Alexandre Magno sucede a Filipe da Macedônia
Nasce Epicuro
Invasão da Índia por Alexandre
Nasce Zenão de Cítio, o fundador do estoicismo
Euclides escreve os Elementos
Aristóteles funda o Liceu cerca de 336
Morte de Alexandre em 323
Nasce Arcesilau, fundador da Academia Média e defensor do cepticismo
Aristarco apresenta a hipótese heliocêntrica
300 a. C.
Nasce Arquimedes
Erastóstenes faz a primeira estimativa do perímetro terrestre
Nasce Carnéades, fundador da Nova Academia e céptico
200 a. C.
 Nasce Cícero
100 a. C.
César atravessa o Rubicão
A Biblioteca de Alexandria é destruída
Lucrécio escreve o poema De Rerum Natura, uma versão poética do epicurismo
Morte de Júlio César
Idade de Ouro da Literatura Romana: Virgílio, Horácio, Tito Lívio, Ovídeo
Nasce Fílon de Alexandria
Ano 0 - Nascimento de Jesus Cristo

JESUS - O LIBERTADOR(GOEL): NOS ENSINA O CAMINHO

Nasce Sêneca
Morre o imperador romano Augusto, a quem sucede Tibério
Morte de Jesus Cristo
Nero torna-se imperador de Roma e persegue os cristãos
Destruição de Pompéia em 79
Nasce Plutarco
Idade de Prata da Literatura Romana: Plínio, Juvenal, Quintiliano
100
Trajano torna-se imperador e expande como nunca o império romano
Nasce Marco Aurélio
Nasce Clemente de Alexandria
Nasce Tertuliano
Nasce Orígenes
Diógenes de Laércio escreve sobre a vida e as idéias dos filósofos
Sexto Empírico defende o cepticismo
Nasce Plotino, o fundador do neoplatonismo
200
Orígenes tenta conciliar o cristianismo com o platonismo
Nasce Porfírio, futuro discípulo de Plotino
Diocleciano restaura a unidade ameaçada do império, ordenando a erradicação da igreja cristã
300
Constantino proíbe culto fora do dia de domingo.
Fundação de Constantinopla, a qual se torna sede do Império Romano em 331
Concílio de Nicéia presidido por Constantino ainda pagão
Nasce Santo Agostinho
Dá-se a divisão no Império Romano entre ocidente e oriente


FILOSOFIA MEDIEVAL

A TEORIA DO CONHECIMENTO

sábado, 25 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL!!!




Hô!...  Hô!...  Hô!... Hô!...

FELIZ NATAL A TOOOOODOS E A VOCÊ QUE ESTÁ LIGADO NO CANTINHO DA FILOSOFIA .

Lembre-se: JESUS EM BREVE VIRÁ!

PREPARE-SE!  É O DESEJO DESTE BLOG QUE JESUS NASÇA EM SEUS CORAÇÕES TOOOOOODOOOOOS  OS DIAS E QUE SEJA MUUUUUUUUUUUUITO FELIIIIIIIIIIIIIZ!

Grupo CARPEMA

(Para visualizar as fotos em tamanho grande, clique nelas)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A COSMOLOGIA E A CIVILIZAÇÃO GREGA

GRÉCIA: BERÇO DA FILOSOFIA
Embora muitas civilizações antigas tenham realizado importantes progressos científicos, nada se compara ao que foi conseguido pelos gregos antigos. Entre o século VI a.C. e o século II da nossa era, isto é, desde Tales até Ptolomeu, a civilização grega, e em particular a sua intelectualidade, iluminou a humanidade. Após este período brilhante, a “inspiração” e a civilização grega começaram a desvanecer-se.

Apesar do declínio, o sistema geocêntrico de Ptolomeu, inspirado no universo aristotélico, e em todo o conhecimento que ele encerra, pode ser considerado como uma das maiores obras astronômicas produzidas por aquela civilização, mesmo tendo em conta que não incluía muitos dos desenvolvimentos criados pela cultura grega. Podemos referir, por exemplo, que a idéia de Platão de um universo infinito, não estava contemplada, o mesmo acontecendo em relação à sugestão de Demócrito segundo a qual a Via Láctea seria um enorme aglomerado de estrelas. Contudo, em termos de evolução da astronomia, talvez mais grave, terá sido o fato de Ptolomeu ter completamente ignorado a proposta de Heraclides, segundo a qual a Terra deveria rodar sobre si própria, e a de Aristarco, que propunha que a Terra orbitária em torno do Sol.

O início da revolução efetuada pelos gregos pode situar-se por volta do início do século VI a.C.,. É também a partir dessa época que é possível reconhecer uma utilização sistemática da geometria, nos métodos adotados pelos astrônomos gregos, métodos esses que teriam uma importância fundamental na evolução da ciência, nos séculos que se seguiriam. Convém dizer que o que hoje sabemos sobre o conhecimento astronômico grego no início desta nova época, se deve às obras de Aristóteles que chegaram até nós, as quais foram escritas cerca de dois séculos mais tarde, isto é, no século IV a.C., e onde Aristóteles nos oferece uma compilação do conhecimento produzido pelos pensadores gregos dos séculos anteriores. Aristóteles refere muitas reflexões e propostas de filósofos e pensadores em geral, mas no que à astronomia e cosmologia diz respeito, merecem destaque as referências a Tales, Anaximandro, Anaxímenes, e Pitágoras, todos do século VI a.C.  

Foram eles que começaram a desenvolver o método científico de investigação. Na Grécia antiga os pesquisadores começaram a se preocupar em ser céticos quanto às explicações imediatas dos fenômenos que ocorriam à sua volta. A ciência passou a ter uma forte conotação experimental e o cientista passou a ser um investigador.  

A característica do gênio Filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a Filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses. 


sábado, 4 de dezembro de 2010

MECANISMO DA INFERÊNCIA, NOÇÕES DE LÓGICA DAS PROPOSIÇÕES



Para estudarmos o mecanismo da inferência, precisamos de algumas noções de Lógica das Proposições e de Lógica dos Predicados.

A Lógica investiga leis de raciocínio correto, isto é, aquele que permite, a partir de proposições verdadeiras, chegar a conclusões verdadeiras.

A Lógica das Proposições opera com conectivos:

1. Negação (- ~ )

Leituras:

1. não, não é fato que,

2. não é verdade que,

3. não é o caso de.

Seja p uma proposição qualquer. Por exemplo, se “hoje é domingo” é verdadeiro (v), então “hoje não é domingo” é falso (f); se “hoje não é domingo” é verdadeiro (v), então “hoje é domingo” é falso (f).


2. Conjunção (& .)

Leitura: e

Na linguagem corrente, o conectivo "e" tem duas significações: "e também" (e +) e "e depois" (e >).

O primeiro desses sentidos é o usual no texto descritivo.

Quando digo que “ela tem um marido e um filho”, digo que ela tem um marido e também um filho. O segundo desses sentidos é o usual no texto narrativo.
Quando digo "ela se casou e teve um filho", pressuponho que o casamento precedeu o "ter um filho".

O sentido "e também" é o mais elementar, isto porque o "e depois" pode ser  compreendido como "e também" acrescido de "depois O sentido "e também" é o que é considerado em Lógica.